Inzibidinha Uma foca em Galápagos
terça-feira, 10 de maio de 2005



"Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa,
têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem
[e muitas destas coisas nem sequer têm nome] - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa..."

Virginia Woolf, in "Orlando"

Todos nós afivelamos diferentes máscaras para representarmos diferentes papéis, em estranhos palcos.
Ou somos pratos.
Mais que ser vários eus, temos multidões de eus diferentes e, portanto...

EU CONTENHO MULTIDÕES!




Vivemos de Palavras

Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras.
Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos...
Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm,
são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra
de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade.
Há momentos em que cada um grita: - Eu não vivi!
Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo.

A vida é só isto?


Raul Brandão, in "Húmus"


Se não tivéssemos tantos defeitos, não nos agradaria tanto
notá-los nos outros...

A l o h á !!!




Postado por Carolinne
:: Fala Tonho! ::[5]




quarta-feira, 27 de abril de 2005


Museo de Arte Moderna - Palacio de Tokio

Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente
e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação.
Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso...

O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela...
O.Wild!


"Os inimigos da verdade não são as mentiras,
mas as convicções..."



Nossas convicções é que impedem que a verdade se estabeleça em nossas vidas,
são as convicções que nos aprisionam, nos limitam e nos segmentam,impedindo a gente
de se desenvolver com singularidade...que belo medo temos das nossas capacidades...
mas se tu prefere apenas se manter integrado, melhor adotar então meia-dúzia de convicções
e seguir obediente a fila da procissão...
pq olhar para dentro de si mesmo, profundamente,é sempre muito perturbador...


Saudades ...



Postado por Carolinne
:: Fala Tonho! ::[3]




terça-feira, 26 de abril de 2005


O Vermelho e o Negro - Stendhal


Julien Sorel fazia parte de uma sociedade dividida em classes sociais.
Cada uma com concepções de mundo diferentes, disputadas violentamente. Em cerca de 33 anos a França passou pela Revolução Burguesa, Consulado, o Império Napoleônico e a Restauração. 4 anos depois que entramos em contato com a história de Julien, 1826, então com 19 anos, eclode a Revolução de Julho.

A narrativa do romance é construída num sistema de relações, em que o tempo e o espaço onde ela se desenvolve tem um papel fundamental para entender o porquê de Julien Sorel agir de determinada forma.

As camadas do solo que Julien pisava estavam num processo de ajustamento, de movimento constante, gerando um sensação de insegurança e medo permanente. Crenças democráticas radicais coexistindo com o pensamento liberal, nostalgia pelo Ancien Régime. A idéia permanente era de dualidade, transição. Tal situação interfere nas relações entre os indivíduos, modificando-as:

"as pessoas só podem conviver harmoniosamente como sociedade quando suas necessidades e metas socialmente formadas, na condição de indivíduos, conseguem chegar a um alto nível de realização; e o alto nível de realização individual só pode ser atingido quando a estrutura social formada e mantida pelas ações dos próprios indivíduos é construída de maneira a não levar constantemente as tensões destrutivas aos grupos e aos indivíduos"

Com Julien Sorel há um desajuste entre seu habitus social e as situações objetivamente confrontadas, assim como era elevado o grau de desvio do seu habitus social e o habitus individual. Daí aparecer a noção de desajuste.
Porém, Julien sempre tentava agir de acordo as normas e regras dos campos sociais por onde passava, sempre à custa de um enorme esforço de interiorizar as estruturas.

A possibilidade de coesão social na França de Julien estava restrita aos campos que conseguiam, através dos seus membros, reforçar a crença do campo, reproduzindo-o. Porém, quando tentamos perceber o nível de integração ou de comunicação entre os diversos campos, o que vemos, via Julien, é um processo de desintegração, de esgarçamento do tecido social.É neste quadro que Julien se movimenta.

Julien Sorel, filho caçula de uma família camponesa , odiava sua origem e o futuro que lhe aguardava: trabalhar como serrador de tábuas. Sua ambição era fazer carreira militar. Tinha a mente povoada pelas campanhas vitoriosas e os grandes feitos do seu maior ídolo: Napoleão Bonaparte. Esta época, porém, fazia parte da história da França.

Qual a alternativa então? Qual o campo que possibilitaria a um jovem camponês fazer fortuna?

Cada ação de Sorel, ao longo do livro , é antecedida por um processo de racionalização que busca, em primeiro lugar, fazer o reconhecimento do meio social no qual se encontra (as regras, normas de conduta, qual posição que cada indivíduo ocupa) para, a partir daí, representar seu papel. Contudo, fazer esse reconhecimento e se movimentar com facilidade num espaço social onde as pessoas agiam de acordo com um habitus diferente do seu, levava um certo tempo.

Mas , eis que o imprevisto nos planos do nosso estrategista do amor acontece: ele se apaixona pela Sra. Rênal,uma senhora casada,tão suave e boa "mas que fora criada no campo inimigo".Inicialmente o sentimento que levou Julien a envolver-se com esta senhora não foi a paixão ou algo parecido. Colocara-se como um desafio tê-la, fazê-la apaixonar-se. Estabelecia metas. A cada etapa vencida,um toque de mão, um olhar mais demorado, visitas noturnas a seu quarto, ele suspirava feliz:

" Sim, eu ganhei uma batalha... Isso é puro Napoleão."

Porém, seu tempo de amante acabara. Depois da carta anônima, não resta outra saída: Julien vai para o seminário em Besançon. Ali conhecerá o campo religioso.A forma como as ações de Julien são construídas nos indica a complexidade de sua personalidade. Julien não é vilão, nem mocinho. Nada se distancia mais dele do que o tipo ideal desses dois extremos, imortalizado pelos personagens das novelas medievais.

É no processo de conhecimento do mundo que ele realiza o auto-conhecimento.

Mas, quem pode dizer que se conhece ou tem a capacidade de prever todas suas ações em todos momentos da vida social?

Todos nós somos portadores de determinado sistema de disposições duráveis, que nos capacita a compartilhar determinadas realidades sociais. Se entre o habitus e as situações concretas há um nível de previsibilidade das ações, também há o da imprevisibilidade.

Isto aparece em Julien quando se envolve com alguém, sente carinho. Neste momentos seu racionalismo, que procura numa ardente meditação interior suas razões de agir, volatiza-se. Não consegue pensar antes de agir e nem de pensar como o outro está pensando para lhe surpreender com um xeque-mate. Isso é mais visível quando está apaixonado.
Aí se estabelece um duelo interior infernal entre a razão e o coração.

Passado algum tempo pôde perceber com mais clareza o código de conduta dos salões. O sentimento de admiração inicial cedia lugar ao menosprezo pelo mundo da alta sociedade parisiense. Participar todas as noites daqueles encontros tornara-se para ele uma suplício. Nos salões podiam comentar tudo livremente, menos fazer piadas "a respeito de Deus, nem
dos padres, nem do rei, nem das pessoas de posição, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo o que está estabelecido; contanto que não falassem bem de Béranger, nem dos jornais da oposição, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de todos os que se permitiam certa linguagem franca; contanto, sobretudo, que nunca falassem em política, podiam comentar tudo livremente."

Não havia espaço para qualquer idéia viva. O código dos salões era implacável. Não se admitia qualquer nível de imprevisibilidade nos comportamentos ou opiniões, fosse dos jovens ou velhos aristocratas. As maneiras encantadoras, tão alegres na aparência, careciam de idéias, de originalidade. Julien só enxergava cópias. Viviam à sombra de uma revolução. Buscavam voltar-se para dentro. Nada poderia transpor aquela parede invisível entre o mundo lá fora, em ebulição, e o dos salões. Podia-se sentir, contudo, que pairava o medo no ar, medo de outra revolução e da volta da aristocracia à guilhotina.Julien sentia-se asfixiado.

Porém, tudo que Julien sempre sonhara estava realizando: tornara-se um militar, conseguira ter seu amor correspondido, seria pai. Parecia que sua guerra com a sociedade findara.

Mas Julien é preso.

As longas noites e dias na prisão são preenchidos por pensamentos profundos, filosóficos. No seu julgamento estava cheio desses pensamentos e ousou quebrar a regra de ouro do seu século; usou as palavras para expressar qual sua posição diante da sociedade e,falando assim, ele decretou sua própria sentença: a guilhotina.

Pouco antes de subir ao cadafalso, pensava... " Uma efêmera nasce às nove horas de um lindo dia verão para morrer às cinco horas da tarde; como haveria ela de compreender a palavra noite ?"

Quando a lâmina afiada separou o corpo da cabeça de Julien,sua esposa não ficou desesperada. Agora ela via que estava certa: Julien era audacioso. Sentia-se a própria Margarida de Navarra. Pegou a cabeça de Julien , colocou-a à sua frente e beijou-lhe a fronte. E ela mesma a enterrou, com muita pompa.

Stendhal nos fez entrar em contato com o político,o religioso e o campo da aristocracia,incluindo o tema que constantemente ronda nossas vidas... o amor.


Bonjour minha literata ilha!


Postado por Carolinne
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domingo, 10 de abril de 2005


Magrite - imagem Luis F ernando Calaça


Caminhamos por muitas décadas...anos 50 de Simone e Sartre em Paris,
anos 60 de"here comes the sun,little darling"- Londres...anos 70 da disco-music em NY,
Stúdio 64, macrobiótica, psicanálise, acumpuntura, yoga, ateísmo, caminhamos por Hite,
Buda,Virgínia Woolf, Marcuse,Freud,Jung, Castañeda,Laing,Satie,Joplin,Nietsche,Hendrix...

Temos culturas demais, filmes demais, livros demais, músicas demais, lirismos demais,
não importa o quê,desejamos muito 'acreditar' em alguma coisa,seja nova ou velha,
feia ou bonita, numa razão qualquer prá se viver...mas não acreditamos em nós mesmos
que temos a beleza insuportável de estarmos vivos!

Embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda
é a 'sociedade'!

Arthur Schopenhauer

Schopenhauer diz que o instinto de 'sociabilidade' de cada um está na proporção inversa da sua idade.
A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos.
Para os jovens estar sozinho é uma grande penitência...os adolescentes reunem-se com facilidade e
só os mais dotados de espírito já procuram, às vezes, a solidão. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos
ainda lhes é penoso. Para o homem adulto, todavia, isso é fácil: ele consegue passar bastante tempo sozinho,
tanto mais melhor,quanto mais avança nos anos. O ancião, único sobrevivente de gerações desaparecidas,
encontra na solidão o seu elemento próprio, a sua paz...em cada indivíduo, o aumento da inclinação para
o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual.
Tal tendência/solidão, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade mas, antes,
um efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da
miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens.
O que há de pior,neste caso, são essas imperfeições morais e intelectuais "conspirarem entre si",
resultando num dos fenônemos mais repulsivos que tornam o convívio com a maioria dos homens
em algo insuportável.O próprio Voltaire,um sociável francês, teve de admitir:

"La terre est couverte de gens qui ne méritent pas qu'on leur parle!"
[A terra está coberta de pessoas que não merecem que se lhes fale!]

PoiZé!
Espero não ser uma delas...


Alohá meus trenguitos!!!



Postado por Carolinne
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quarta-feira, 30 de março de 2005

Grito!




"Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos


se ao menos esta dor visse
se ela saltasse fora da garganta
como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse


se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir saliva fora
sujar a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre e tem o direito de não sofrer


se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se menos essa dor sangrasse..."


Saramago!






"Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura,
ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas
a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra
margem, a outra margem é que importa..."


Saramago - "A Caverna"




Postado por Carolinne
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quarta-feira, 23 de março de 2005


Ítalo Calvino!


"Cidades invisíveis" é de uma lucidez preciosa, de um insight preciso.
Ele imagina as cidades mulheres. Imagina que as cidades são entes que conversam, que dialogam, que têm caráter, têm uma tessitura de personalidade. Você vai entender a cidade numa outra abordagem.
Enquanto hoje nós entendemos a cidade sempre vendo o lado desumanizado dela, Ítalo Calvino lembra que as cidades são humanas. A cidade está mal exercida exatamente onde se faz uma avenida desumana, um viaduto desumano, prédios desumanos.

Todos gestos materiais, todos para atender o mercado imobiliário, todos para atender o fluxo de veículos, as transposições das avenidas, as interseções viárias e nunca para atender o olho do homem, seu coração, a possibilidade de relacionamento gentil. Se por acaso retirarmos do processo da cidade a arquitetura, estaremos retirando a dimensão humana da construção. Queremos construir prédios humanos onde poderemos mostrar que existe uma diferença muito grande entre o prédio bonito e o prédio com arquitetura.

Acho importantíssima a poética. As palavras ajudam-me a cadenciar os pensamentos e palavras fazem poesia. Então, palavras fazem arquitetura, e arquitetura feita de palavras que se ordenam de determinada maneira mostram que os pensamentos também foram ordenados, mostram-me ou afirmam-me que houve ordenação de pensamentos. E ordenar os pensamentos significa hierarquizá-los também, de forma a saber qual deles é o dominante. Os outros servem de apoio, de suporte, de contorno...

O homem, ao afirmar sua posição no mundo, faz arquitetura, é o seu sinal no planeta. O primeiro sinal é o gesto de território. A primeira coisa que o primeiro homem fez foi arranjar seu lugar quando se viu nu na terra. A primeira arte, a primeira manifestação artística do homem foi a arquitetura. Mas por que foi a arquitetura?

Você imagina um sujeito posto no mundo. Ele abriu os olhos e viu a terra. Aí, ele começou a se identificar e a buscar interpretar os códigos da natureza. A água molha, o sol esquenta, a noite é mais fria. Apropriou-se da caverna como um lugar mais defendido das adversidades. De qualquer maneira, ele entendeu o lugar dele.
Depois, fez fogo, música, ocupou a caverna com pintura, imprimiu sua presença e personalizou aquele espaço...



"Se passou sensação, sentimento, não precisa justificativa...
se não passou, de nada adiantam as justificativas... "

Bonjour!





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terça-feira, 15 de março de 2005


Guerreiros - combatentes!


"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito
nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias
e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco.
Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo,
quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Quero amigos para saber quem eu sou...
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que
"normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril..."



Oscar Wilde

"Na fogueira do que faço,por amor me queimo inteiro mas...
simultâneo renasço!"

Baci!




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quarta-feira, 9 de março de 2005


"O sujeito é seu sintoma"... já dizia Lacan!



As afirmações não têm sentido porque elas dizem algo que não pode ser dito, apenas...

mas demonstrado!


Civediamo... Ciao...




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sexta-feira, 4 de março de 2005

De nada adianta o sopro
dos ventos favoráveis...



se não existe um porto para atracar seu barco!



"Foi bom ter tido um amigo, mesmo que se vá morrer...
Eu parecerei morto e não será verdade..."...



Saint-Exupéry


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quarta-feira, 2 de março de 2005




Quando eu bebo, bebo tudo...
O licor desejado e aquele que ainda couber.
Talvez ainda sobre espaço para beber para anestesiar a ressaca de ontem.
Penetrar no recinto dos fantasmas e participar dele.
Saber-se na vertigem das perdições inconcebíveis.
Saber-se à boca da sarjeta os restos de lua e luz confusa, difusa das percepções da noite.
Sim, a visita de Netuno com seus mares com suas águas,
onde tudo pode ser e nada é!
A ingestão do âmbar o cheiro dos perfumes...
A náusea de saber-se uma pequena tristeza na multidão dos seres
na noite de todos os desesperos.

Quando eu como, como tudo... Como se buscasse saciar a fome do mundo.
Como não fosse o amanhã o construtor do prato feito.
Como se fosse necessário criar a reserva para as sete vacas do porvir...

Quando eu amo, amo tudo... Eu te quero, e quero toda...
Quero beber e comer de ti pois é essa a verdadeira sede e fome a ser saciada.
Pois é esse o verdadeiro desejo e não é só de prazer.
É a real necessidade de ter tudo da mulher que amo...
E saber-se inteiramente contido em cada gota de esperma, saliva, sangue ou suor
por ti e por mim derramada, imolada, ofertada...
no perfeito ato de entrega.
Sem meias porções, sem meias sensações sem mascarar as ilusões e sim esculpir na carne,
construir nas porosidades de todos interstícios a mistura de humores o miscigenar de espíritos.

Assim, cada vez que eu te amar, te amarei por inteiro e você inteira...
E na explosão, meu gozo será com o teu, para dar todo impulso e te encontrar,flor escancarada,
pronta para germinar e criar dentro de ti.
Quererei ser teu dentro de ti. Vivo.
Vivo, carne, alma.
Ser. Todo.
Teu...



"O que sustenta o seu interior ... quando todo o resto
desaba?"




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terça-feira, 1 de março de 2005


Tua pele queima meus dedos...


" Com minha razão apenas, com os meus dedos,
com lentas águas lentas inundadas,
caio no império dos miosótis,
numa tenaz atmosfera de luto,
numa olvidada sala decaída,
num cacho de trevos amargos.

Caio na sombra,no meio
de destruídas coisas,
e espio aranhas,e apascento bosques
de secretas madeiras inconclusas,
e ando entre úmidas fibras arrancadas
ao vivo ser de substância e silêncio.

Doce matéria,oh rosa de asas secas,
no meu afundamento as tuas pétalas subo
com pesados pés de rubra fadiga,
e na tua catedral dura
me ajoelho
batendo nos meus lábios com um anjo.

É que sou eu diante da tua cor do mundo,
diante das tuas pálidas espadas mortas,
diante dos teus corações reunidos,
diante da tua silenciosa multidão..."



Pablo Neruda

V E M . . . R E D U Z - M E !!!



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sábado, 26 de fevereiro de 2005


"O que em ti é inconfessável?"


"Se às vezes digo que as flores sorriem

E se eu disser que os rios cantam,

Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores

E cantos no correr dos rios...

É porque assim faço mais sentir aos homens falsos

A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.

Porque escrevo para eles me lerem

Sacrifico-me às vezes

À sua estupidez de sentidos...

Não concordo comigo mas absolvo-me,

Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,

Porque há homens que não percebem a sua linguagem,

Por ela não ser linguagem nenhuma."



Vrummmmmmmmmm...


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"eu conhecia a distância entre as paredes. caminhei muitas vezes pelo corredor.

o sofá grande, a janela fechada para a rua, o quadro bonito e antigo:

a sala: estas palavras e este verso podiam ser o corredor se as palavras fossem a tinta nas paredes:

a cozinha: a mãe a contar-me histórias, a mesa, a água que lavava os talheres, o lume do fogão.

a cozinha era onde estávamos felizes. quero que a casa fique desenhada:

quarto, escada , despensa, sala, casa de banho, corredor corredor,

cozinha cozinha, escritório.

depois, subia as escadas:

despensa, quarto, quarto, despensa, corredor, casa de banho,

despensa, escadas, quarto.

depois, descia as escadas.


eu, na cozinha, chamava a minha mãe. a minha voz: mãe.

a minha mãe respondia-me: estou aqui. e estava num dos quartos de cima.

eu subia as escadas para a encontrar.de manhã, eu acordava e descia as escadas.

sem que eu soubesse, os anos passavam na casa. sem que eu soubesse,

a minha mãe e o meu pai envelheciam.

a casa era toda de claridade e eu não sabia que iria envelhecer assim que

saísse de casa.

havia janelas e havia portas. eu subia para cima de cadeiras para abrir as janelas.

da janela do meu quarto, via o mundo.

sei hoje que poderia ter vivido sem mais mundo do que esse.

sei hoje que transformei o mundo todo nessa casa.

chamo a minha mãe. está num dos quartos de cima. está muito longe...

chamo o meu pai. está muito longe..."




José Luís Peixoto - "A Casa, a Escuridão"

Lisboa, Temas e Debates.



"Qual fé leva em conta a dor de quem a professe?"



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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005




"Não haverá um equívoco em tudo isso?

O que será em verdade transparência

Se a matéria que vê, é opacidade?

Nesta manhã sou e não sou minha paisagem

Terra e claridade se confundem

E o que me vê

Não sabe de si mesmo a sua imagem.



E me sabendo quilha castigada de partidas

Não quis meu canto em leveza e brando

Mas para o vosso ouvido o verso breve

Persistirá cantando.

Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.



Serão leves as límpidas paredes

Onde descansareis vosso caminho?

Terra, tua leveza em minha mão.

Um aroma te suspende e vens a mim

Numas manhãs à procura de águas.

E ainda revestida de vaidades,

te sei..."



Hilda Hilst

"A vida:...uma aventura obscena de tão lúcida!"

Vrummmmmmmmmm...




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"Se inclinas teu coração para ouvir o que espera de ti o próximo,
verás que tua justiça se trai ..."



"Que me valha a fome de teu ser e tantos livros às costas...

Por onde te arrasta evoco teu nome. És a grande errância que me ilude.

Bem sei o quanto tu podes ser todas elas, as mulheres de que necessito.

Te entregas a teus livros, a manuscrevê-los como uma fortuna secreta.

Nunca te vi em lágrimas e o meu gozo... recebes como uma bênção...

Me anima ser o princípio de tua escrita, embora me valha mais o gozo..."



Floriano Martins





"Não sabes por quantas vezes tua ausência se repetiu em meus olhos...

Sofro de volúpia, não vou converter minha agonia em versos singelos.

Ser teu amor talvez seja meu destino...

Tenho comigo tanto de tí...tantas noites na memória...

O amor quer tão pouco de si, quase sempre apenas um cenário:

a dor que não cabe em nós..."



"O que leva um homem a esconder algo de si
para que um dia venha ele mesmo a encontrá-lo?... "




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terça-feira, 22 de fevereiro de 2005


Homenagem ao 1ºano de vida de uma tribo na areia
e às Lembranças de seu mais lindo Guerreiro...




Parabéns filho de Angola,de Portugal, do Mondo...
Parabéns da ilha meu doce Gui!!!




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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005



"Dentro da máscara, todas as pistas são falsas...
Pq alí, as fábulas estão gastas..."


Vrummmmmmmmmmm...




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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005




"Que nudez descobrirás? Qual delas profanarás?

Misturas meu sangue em tantos enlevos e exaltações,

que já não sei quantas sou, em tantas mulheres desaguada...

Quantas serei para ti?

Descobrirás a mim ou a ti, em tanto leito desfeito?

Quantas vezes serei a única, a serva, a estéril, a cega, a última,

a pastora, a desterrada,

a memória?"...




"O que tens de verdadeiramente teu por trás de todo esse fascínio,
ou acaso o que me encanta é seu vazio?..."




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"O que tocamos é o que nos quer ou
o que nos distrai?..."




"Caem-me os dias como uma lâmina a buscar no corte seu único encanto.

O sol, o reinado, a palavra, o testemunho da fé.

Esquentar a água para o café não pode ser uma afronta a deus algum.

Na isolada chácara em que se reúnem, acaso as leis dão continuidade a seus termos?

Cerco-me de galinhas, grãos, utensílios e parte de tudo isto é minha dúvida

acerca da variação dos dias.

Quantas vezes súdita terei que ser para justificar o dia de um rei?

Quanto pão, meu senhor, cabe na boca de tua insana fome?

Todo dia esquento a água para o café.

Todo dia me pedes para confiar em tua palavra.

Sabes o gosto do que faço...

Saberei o teu? "




Floriano Martins


Hi vida!!!


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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005




"Olho tua pele como uma estamparia do infinito...
Dou-lhe como se doravante me tocassem todos os clamores da existência.
Tua pele caída em minhas mãos: uma celebração de regozijos.
E quero-a comigo em viscosidade surpreendida e anúncio triunfante
de tudo o que passa:
'tua pele exaltada como portas que levam de um desmaio a outro'.
Variação de melancolias que são a chave do que mais amo.
Um rasgo bem dentro do abismo, onde o coração dispara e ninguém pode conter
a presença do indizível.
Com uma faca percorro o labirinto de tua pele.
Descanso meus olhos no insondável de pequenas dobras.
Um talho se inicia e tua nudez admirável me envaidece.
És meu melhor capricho.
Cuido bem de estirar essa pele, uma vez extraída do corpo, e com ela dançar pela sala,
gritando salve a riqueza do mundo, salve a canção com que se acende o fogo,
salve o rito precipitado sobre todas as ações.
Assim é que teu corpo me escapa e contemplo o despertar do que sequer imaginavas..."


Vrummmmmmmmm....



Postado por Carolinne
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Inzibidinha Uma foca em Galápagos



























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